A colina da Santa Casa, um dos miradouros privilegiados de Vizela, ocupa um amplo espaço, permitindo que os equipamentos de solidariedade social, Lar de Idosos, Creches, Jardins de Infância e Salas de A.T.L., ocupem uma distribuição harmoniosa entre si, enquadrados por espaços de recreio e por pequenas zonas de arbustos e flores.
A Santa Casa da Misericórdia de Vizela é um lugar de amor ao outro que precisa, mas também de memória.
Tudo terá começado lá longe, no Brasil, na saudade filantrópica do rincão natal de um emigrante de S. Paio de Moreira de Cónegos, António
Francisco Guimarães que, ao sentir a vida a declinar, fez o testamento, a 4 de Agosto de 1868, na cidade de Campinas, Estado de S. Paulo e nele determinou: “ Os remanescentes da minha terça serão divididos em três partes iguais, a primeira para se fundar uma casa de caridade ou misericórdia nas Caldas de Vizela...... A segunda parte da minha terça será entregue à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, a última terça parte será aplicada numa casa de caridade na cidade de Campinas......”
António Francisco Guimarães sentiu o impulso generoso de outros emigrantes bem sucedidos no Brasil, no Séc. XIX, que, mesmo sem regresso à Pátria, contemplavam a terra que os viu nascer com avultadas doações, em caminhadas quase sempre para as Misericórdias. Estas eram Instituições prestigiadas de fraternidade social que se implantaram no mundo lusíada a partir do século XVI.
As Misericórdias nasceram no dia 15 de Agosto de 1498, de uma confraria dedicada à Virgem da Misericórdia e contaram com o empenhamento e a protecção da Rainha D. Leonor, já então viúva do Rei D. João II.
Provavelmente, António Francisco Guimarães, que viria a falecer a 16 de Julho de 1873, desejava dotar Caldas de Vizela, a povoação de maior desenvolvimento junto da sua terra natal, de uma Misericórdia que construísse um Hospital com o fim de acolher enfermos que procuravam lenitivo nos chamados “Banhos Romanos” da Lameira.
O testamento consignava que os juros do capital se dividissem em duas partes: uma delas pertenceria à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, cuja Mesa fora encarregada da administração do legado, e a outra seria acrescentada ao capital até que surgisse “ocasião de se fundar uma casa de caridade ou misericórdia nas Caldas de Vizela”.
Ora, o texto do testamento fora redigido com ambiguidades que suscitaram tantas dúvidas de interpretação à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, que, só cerca de trinta anos, após a morte de António Francisco Guimarães, se deu início à construção de Hospital, como teremos oportunidade de ver!
O legado de António Francisco Guimarães permitiria a criação condigna de uma instituição de beneficência de que os habitantes da ribeira do Vizela tanto careciam?
Apenas sabemos que o montante do espólio à data do falecimento de António Francisco Guimarães andaria à volta de 1.520.000$000 réis (brasileiros), uma fortuna para a época compreendendo uma grande fazenda de café com várias casas, oitenta escravos, utensílios de lavoura e vários imóveis em Campinas, dinheiro, papéis de crédito, etc.
Deste património o grande Benemérito deixou os remanescentes da sua terça que remontaram, deduzidos todos os encargos, a 480.446$660 réis que seriam confiados a instituições de beneficiência. Mas desta quantia somente um terço seria entregue à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães com o encargo de fundar “uma casa de caridade ou misericórdia nas Caldas de Vizela o que corresponderia a 160.148$888 réis.
No entanto, a quantia efectivamente recebida através do agente consular e do Banco de Guimarães remontou apenas a 110.304$687 réis (brasileiros), que transferidos através de Londres, deram em moeda portuguesa da época 58.483$872 réis.
Se usarmos ainda o escudo como moeda de referência, o valor actual do legado, que a Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães recebeu, computar-se-ia aproximadamente em 200.000 contos, de acordo com o coeficiente de actualização do imposto de mais valias.
Em Junho de 1883, já a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães estava ciente que mais nenhuma verba significativa do legado iria receber, tornando-se por isso imperioso dar cumprimento à vontade do Benemérito. Só que a redacção do testamento levantava dúvidas à Mesa da Santa Casa e, entre elas, contavam-se as seguintes:
- A metade dos lucros destinados à Misericórdia de Guimarães seria referente ao dinheiro que agenciasse com a quantia que recebesse ou diria respeito a toda a capitalização?
- Até quando devia fazer-se a capitalização dos juros, sempre ou até à fundação da instituição?
- A administração do estabelecimento criado competiria sempre à Misericórdia de Guimarães? - Uma vez que António Francisco Guimarães desejava que na instituição a criar tivessem preferência os pobres da sua terra natal, Moreira de Cónegos, não seria mais conveniente destinar o “hospital” só para os doentes daquela Freguesia, enquanto os fundos não chegassem para todos os necessitados?
- Que tipo de instituição se devia criar nas Caldas de Vizela, uma casa de caridade ou misericórdia?
Veremos as respostas dadas a estas questões pelos eminentes homens de Direito então consultados.
A partir de 1882, começaram a chegar à Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães os pareceres jurídicos solicitados a ilustres causídicos incluindo a Associação de Advogados de Lisboa.
O texto do Testamento, como já vimos, enfermava de algumas ambiguidades e, demais, tem muito de verdade a sabedoria popular que afirma “cada cabeça sua sentença”.
As divergências mais sensíveis centravam-se em dois pontos, a saber:
1- Que tipo de instituição de beneficência o testador desejava que fosse implantado em Caldas de Vizela?
2- Criada a instituição, a quem competiria administrá-la?
Pelo que diz respeito à primeira dúvida, uns eram categóricos: António Francisco Guimarães pretendia, desde que o dinheiro chegasse, criar em Caldas de Vizela um hospital.
Outros entendiam que se o benemérito não explicitou, de forma clara, a instituição pretendida, competia à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães optar pelo equipamento de carácter social que entendesse que tanto podia ser um hospital como um asilo.
Por último, havia ainda quem argumentasse que, não obstante o testador ser de Moreira de Cónegos, não quis que a Casa de beneficência surgisse na sua terra natal, mas, sim, em Caldas de Vizela, por desejar que a instituição se adaptasse ao carácter da povoação. Isto é, à semelhança do que acontecera nas Caldas da Rainha, que fosse criada em Vizela um hospital termal. Lá longe, no Brasil, deviam ter chegado a António Francisco Guimarães ecos das condições miseráveis em que mergulhavam, nos Banhos Romanos da Lameira, tantos enfermos da região!
Quanto à segunda questão, também surgiram opiniões diferentes: os que entendiam que a nova Instituição de beneficência de Caldas de Vizela devia ser administrada pela Misericórdia de Guimarães; outros argumentavam que pelo facto do equipamento social se levantar numa freguesia do concelho vimaranense a sua administração devia competir à Câmara que a entregaria a uma comissão cujos membros seriam de eleição popular; os últimos preconizavam que, criada a instituição, a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães nada mais tinha a fazer do que entregá-la à autoridade administrativa que, entretanto, surgisse.
Havia um ponto convergente: estavam decorridos quase dez anos após a morte do benemérito e urgia iniciar-se a construção do centro de beneficência.
Finalmente o terreno
A opção sobre o tipo de equipamento social a construir recaiu num hospital. E, como se imagina, não foi fácil encontrar um terreno adequado aos objectivos pretendidos. Duas comissões foram nomeadas, mas não conseguiram levar a bom termo a missão confiada.
Só uma terceira comissão, nomeada a 2 de Março de 1888, presidida pelo Dr. Abílio Torres e que integrava outros vizelenses, os Párocos de S. Miguel e de S. João das Caldas, Moreira de Cónegos e o farmacêutico, José Freitas de Oliveira, apresentou um relatório à Mesa da Misericórdia de Guimarães, anunciando que a sua escolha recaíra num único lugar denominado “O Outeiro”, que reunia todos os requisitos necessários, “de higiene, de economia, de situação e de comodidade”; acrescentando ainda, com entusiasmo o seguinte:
“A situação é incontestavelmente a mais bela que possui esta povoação; é descoberta de todos os pontos e o panorama, que dali se descobre, é cheio de paisagens verdadeiramente surpreendentes. Sem ficar dentro da povoação dista dela menos de uma centena de metros no seu ponto mais aproximado; o acesso é facílimo e pouco dispendioso. Fica nas proximidades do estabelecimento balnear, do açougue e dos estabelecimentos de comércio, etc. As vantagens, pois, que este local oferece debaixo de todos os pontos de vista que se considere, são de tal ordem e tão evidentes que o impõem a todos que o observam”.
Com tais argumentos, a Mesa da Santa Casa de Guimarães acabou por aceitar a escolha.
O terreno estava escolhido, só que as dúvidas continuaram para a Mesa da Santa Casa de Misericórdia de Guimarães. Seria melhor a construção de um hospital ou de qualquer outro estabelecimento de caridade que tivesse em conta as condições especiais da localidade, mas também as necessidades do concelho. Depois, havia ainda a ter em conta o capital disponível do legado que, em 1889, pouco ultrapassaria os 80 contos de réis.
O processo da construção de um hospital ou albergue lá continuava a marcar passo durante mais alguns anos. Os políticos monárquicos, regeneradores e progressistas, acusavam-se mutuamente, durante as campanhas eleitorais, por ainda não se ter dado cumprimento ao legado tão generoso de António Francisco Guimarães. Mas lá se foi arranjando coragem para se confiar ao arquitecto italiano, Nicolau Bigalia, a elaboração de um projecto de construção para o hospital de Vizela.
Só que o projecto resultou demasiado grande e sumptuoso e acabou por ser posto de lado! Seria a mudança de regime político, a Proclamação da República que ocorreu a 5 de Outubro de 1910, a dar o passo decisivo na construção do tão almejado hospital. Escassos meses, após a implantação da República, o Governo Civil de Braga, pediu por ofício, informações à Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, respeitantes ao legado de António Francisco.
A resposta não se fez esperar, a Santa Casa enviou uma cópia do testamento, acompanhada de resoluções da Mesa, mais informando que a verba legada e a respectiva capitalização somavam 149.867$312 réis.
O primeiro Governador Civil de Braga da República era o Dr. Manuel Monteiro, homem de grande carácter, cultíssimo e um republicano muito prestigiado não perdeu tempo e a 6 de Abril de 1911 teve lugar uma reunião, no gabinete do Governador Civil, entre todas as partes interessadas. Nela se estabeleceu que a Misericórdia de Guimarães administraria o legado de Campinas até à abertura do hospital de Vizela, que a planta do edifício, já existente, devia ser revista e, por último, nomear-se-ia uma comissão de médicos para examinar se o terreno já escolhido obedecia a todas as prescrições médicas e de higiene exigidas.
Constituída a comissão, que integrava o Director das obras Públicas de Braga, o Delegado de Saúde do Distrito, Subdelgado de Saúde do concelho de Guimarães e os médicos vizelenses, Dr. Armindo Ribeiro de Freitas, Dr. Abílio Torres e Dr. Manuel da Silva Caldas, logo sancionou a escolha do terreno.
A 21 de Maio de 1911, o Dr. Manuel Monteiro fez questão de visitar Vizela e de conhecer o terreno escolhido. Foi um dia de grande festa, com bandas de música que executavam a “portuguesa” e o Dr. Manuel Monteiro do torreão do “castelo” do Dr. Armindo a responder ao povo que o vitoriava. O hospital era um equipamento importante para o desenvolvimento de Vizela e com ele, havia quem pensasse, talvez fosse mais fácil a chegada do concelho!
Confiou-se a adaptação do projecto de Bigalia um grande arquitecto portuense e Professor da Escola de Belas Artes, José Marques da Silva, autor de edifícios importantes como o teatro S. João, no Porto, a Estação de S. Bento, o monumento da Guerra Peninsular, etc. “Uma Comissão construtora do edifício do Hospital de Vizela” logo, em1912, iniciou a adjudicação da obra, através de empreitadas sucessivas.
O lançamento da primeira pedra realizou-se no seio de uma alegria e alvoroço indizíveis de toda a população e ocorreu, a 3 de Junho de 1912, em cerimónia presidida pelo Governador Civil de Braga. Após os discursos, lavrou-se o auto do respectivo evento, cujo texto, com algumas moedas de prata, níquel, cobre e estampilhas postais da época, se introduziu num cofre de ferro que o Dr. Manuel Monteiro fechou e colocou numa cavidade de pedra fundamental ao projecto do edifício, a que se seguiu o cerimonial da martelada e da argamassa.
Os Vizelenses, que esperaram tantos anos por este dia, comemoraram o acontecimento durante dois dias em festas várias, banquetes e cortejos, o que se justificava plenamente!
Lentamente Prossegue a Construção do Hospital...
Com o lançamento da primeira pedra o sonho da construção do Hospital ficou mais perto, mas não tanto quanto seria de esperar. Um projecto tão sofrido e por cuja realização se esperara tantos anos não podia deixar de relembrar velhas queixas e várias personalidades políticas se consideraram os "heróis"da construção. Mas talvez o maior mérito possa ser atribuído a quem é referido na afirmação que pode ler-se no jornal "Alvorada", de Guimarães, do dia 6 de Junho de 1912 que diz "fora o Dr. Manuel Monteiro que, levado por um sentimento nobre de justiça e de moralidade republicana, se entendera, na perfeita harmonia com a Misericórdia de Guimarães e com ela estabelecera o plano mais fácil para a realização duma das maiores aspirações do povo de Vizela" e também, como é óbvio, muito se deve ter ficado a dever à comissão de vizelenses criada para desbloquear o impasse da construção do Hospital.
Só que o novo regime, a República, trouxe consigo muita instabilidade e nas ondas das convulsões políticas acabou por ser exonerado do cargo de Governador Civil de Braga o Dr. Manuel Monteiro, em 24 de Maio de 1913, que se deslocou a Vizela para apresentar cumprimentos de despedida ao Dr. Armindo Ribeiro de Faria e a amigos que ali deixara. Foi nomeado para o substituir o Dr. João Lopes Soares, pai do Dr. Mário Soares. O novo Governador, a propósito de discordar do número de antigas irmãs hospitaleiras secularizadas, que se encontravam entre o pessoal de enfermagem do Hospital, dissolveu a Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, substituindo-a por uma comissão administrativa. Comissão esta que entrou em conflito com a comissão de vizelenses que se criara para fiscalizar as obras de construção do Hospital, dirigindo um ofício ao Governador Civil a pedir a exoneração do organismo de tutela por o considerar absolutamente dispensável. O pedido foi aceite e dissolveu-se a comissão fiscalizadora das obras do Hospital, o que naturalmente provocou algum mal-estar em Vizela.
No entanto, pode considerar-se que o ano de 1913 foi bastante produtivo em aprovação de projectos, orçamentos e adjudicações. Assim, aprovaram-se as seguintes fases de construção do Hospital e citamos as respectivas verbas por mera questão de curiosidade: assento do travejamento e armação da cobertura do edifício, na importância de 5600$000 réis; mas logo se concluiu que havia obras que não foram previstas, aprovando-se para a conclusão dos trabalhos em construção uma verba na importância de 7530$000 réis!
Com o início da Guerra de 1914/1918, o País atravessou grandes dificuldades financeiras que se fizeram sentir no decorrer das obras, o que não impediu que as instalações do Hospital fossem abertas, a título provisório, aos doentes atacados pela pneumónica, em 1918. E em Abril de 1920, teve lugar a obra de pedreiro da entrada principal e do muro de vedação, adjudicada a Joaquim Teixeira, mestre-de-obras de Santa Eulália, pela verba de 6389$00, agora já em escudos. Mas o muro era muito extenso a exigir uma obra perfeita e Joaquim Teixeira alegou que perdeu dinheiro com aquele trabalho, j pedindo depois que lhe fosse pago mais 20% e a pretensão teve o parecer favorável do grande arquitecto Marques da Silva. A Mesa da Santa Casa entendeu só ser possível compensar o mestre-de-obras em 750$00. Recordo-me que no dia em que eu e meu marido contemplávamos o muro de vedação, o Provedor de então da Santa Casa da Misericórdia de Vizela, Manuel Alves Fonseca e Castro, chamou I a nossa atenção para os três portões do muro, estando um voltado para a Freguesia de S. João, outro para a de S. Miguel e o terceiro para Moreira de Cónegos, para que os habitantes das três localidades tivessem acesso franco e rápido ao Hospital, pelo menos em sentido simbólico, de acordo com a vontade do fundador. Em Abril de 1920, considerou-se definitiva a obra de caiação, pintura e de pedreiro da construção do muro, mas logo se levantaram vozes de que nem tudo estava feito e, segundo um correspondente do "Primeiro de Janeiro", faltava ainda a água, as árvores, as terraplanagens e os caminhos condignos. E a inauguração solene do Hospital só teve lugar em 1923!
A 18 de Fevereiro de 1923, num ambiente festivo, teve lugar a inauguração do nosso Hospital que começara a delinear-se há cinquenta anos com a abertura do testamento generoso do grande benemérito António Francisco Guimarães, falecido como sabemos, em 16 de Julho de 1873, na cidade de Campinas, em Terras de Santa Cruz. Houve Missa e uma sessão solene com discursos, proferidos pelo Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, Dr. Alfredo Dias Pinheiro, e pelo vimaranense Tomás Rocha dos Santos e por elementos de uma comissão de vizelenses, que tiveram uma acção preponderante na última fase da construção do Hospital, constituída, entre outros, por Alfredo Bravo, José Pinto de Sousa e Castro, José Ribeiro de Sá e Melo e pelo Dr. Bento Ribeiro de Faria, tomando ainda a palavra uma irmã de caridade, ligada aos serviços de enfermagem, que falou do empenhamento das irmãs na boa gestão do Hospital ao serviço dos que mais precisavam.
Todos se congratularam com a abertura de uma instituição que, exigindo avultados orçamentos, iria prestar os mais valiosos cuidados aos habitantes de Caldas de Vizela e das Freguesias limítrofes. As circunstâncias impunham ainda que se enaltecesse o mérito da Mesa da Santa Casa da Misericórdia e que se lembrasse as acções iniciais levadas a cabo na magnífica escolha do terreno e no arranque das obras. Todos pensaram, de imediato, nos nomes dos médicos Abílio Torres, Armindo Ribeiro de Faria e Joaquim Salgado. A fechar a cerimónia, numa das salas, descerrou-se, com um grande aplauso, a fotografia de António Francisco Guimarães, o maior benfeitor do Hospital. A este respeito merece ser assinalado, como um acto de verdadeira justiça, a deliberação da mesa da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães que, em 2 de Maio de 1923, deu a designação de Hospital de António Francisco Guimarães ao então chamado Hospital de Vizela. Só que, como o nome do patrono do Hospital nunca figurou, de acordo com o que consegui apurar até agora, na frontaria do Hospital, este continuou a ser conhecido pela denominação de Hospital de Vizela.
Mas passada a euforia dos primeiros momentos, começava a desenhar-se algum desencanto, perante a gestão da Misericórdia de Guimarães, uma vez que os vizelenses sonharam ter nas suas mãos a administração do Hospital e dar-lhes as mais amplas funções. Poderá, talvez, afirmar-se que, durante os primeiros anos, o hospital não deveria ter passado de uma instituição de primeiros socorros, o que não quer dizer que não prestasse bons serviços às populações de Vizela, de Moreira e de outras freguesias. E com o deslizar do tempo, o Hospital degradava-se, como se conclui pela leitura de artigos muito críticos publicados em 1952 e 1953, no Jornal de Vizela pela pena do seu Director, Dr. Ary Almeida Elias Costa. A degradação dos edifícios era quase total e inexistente um apetrechamento hospitalar mínimo.
A mencionada campanha, em prol do Hospital iniciada no Jornal de Vizela, deu os seus frutos e em Outubro de 1952, o Hospital António Francisco Guimarães passava a ser gerido pela Santa Casa da Misericórdia, graças a diligências várias, entre as quais merece ser salientada a acção diligente e empenhada de Manuel Fonseca e Castro junto do Ministro do Interior, Dr. Joaquim Trigo de Negreiros. A transferência de gestão foi formalizada em auto e nele outorgaram em representação da Misericórdia de Vizela, devotados vizelenses, Artur Teixeira da Costa e Silva, Manuel Fonseca e Castro e Manuel Faria.
O Hospital sofre então um impulso decisivo, recupera as instalações e torna-se dentro das suas dimensões num estabelecimento hospitalar quase modelar, graças às comparticipações estatais e aos contributos generosos da indústria e comércio locais e da população que organizava cortejos de oferendas e outras iniciativas em prol da sua tão acarinhada instituição. O renovado Hospital passa a contar com um razoável bloco cirúrgico e com serviços de algumas especialidades, como obstetrícia, ginecologia, ortopedia, etc. Foi, por isso, com grande entusiasmo popular, na presença de autoridades civis e religiosas, teve lugar, em 28 de Agosto de 1955, a inauguração daquele que parecia ser quase um novo Hospital e que dava cumprimento à vontade expressa por António Francisco Guimarães. Só que com a nacionalização das Misericórdias, o nosso Hospital, a 1 de Janeiro de 1973, passava a ser administrado por uma comissão nomeada pela Secretaria de Estado da Saúde, de acordo com o Decreto-Lei n. 618/75, de 11 de Novembro, passando a funcionar praticamente como um “centro de saúde. Mas o sonho de Vizela ter um Hospital é que ainda não morreu!
Estas notas são a história possível do nosso Hospital com os dados que posso dispor no meu gabinete de trabalho. Sei por informações do Senhor Provedor, Domingos Pinheiro, que há uma documentação mais vasta nos Arquivos da Santa Casa da Misericórdia de Vizela que poderão trazer novos contributos e completar a história de uma das mais prestigiadas instituições vizelenses. Este meu trabalho chegou, portanto, ao fim e estou grata aos serviços da Santa Casa da Misericórdia que colaboraram comigo e a todos os que leram os apontamentos que escrevi.






